Ao longo da História, seres humanos inocentes dos mais diversos credos,
etnias, gêneros, posições sociais, convicções políticas e orientações sexuais
foram perseguidos, escravizados, torturados, humilhados, estuprados e
assassinados. Tudo isso fere um direito moral básico de todos os seres humanos:
o direito de não ser considerado propriedade.
Ser considerado propriedade significa ser considerado recurso. Coisa. Escravo(a). Apenas um meio para os fins dos outros. Algo sem interesses próprios, ou ao menos não interesses que mereçam ser protegidos por direitos. Assim se justifica praticamente qualquer coisa que possa ser feita com a propriedade. Por um lado, esta não tem direitos. Por outro, o proprietário possui direito legal justamente sobre sua propriedade. O resultado é que os interesses do proprietário – por mais banais que sejam – sempre prevalecerão sobre os interesses da propriedade – por mais fundamentais que sejam.
Mas como é que sabemos que todo ser humano possui o
direito de não ser considerado propriedade? Pelo seguinte: seres humanos
possuem a capacidade biológica de sentir dor. A dor nada mais é que um
mecanismo de preservação da vida. Logo, cada humano preza sua própria vida. Mas
de nada adianta ele estar vivo se sua vida não lhe pertence. Se sua vida
pertence aos outros, ele não poderá escolher sobre seu próprio destino e nem
terá domínio sobre o seu próprio corpo.
E mais: todos os seus interesses vão por água abaixo quando seu direito
de não ser propriedade não é respeitado. Não só porque esses interesses podem
ser violados (pois uma propriedade não têm quaisquer direitos), mas porque eles
serão violados (um ser só é transformado em propriedade se, para começo
de conversa, alguém enxergou em sua exploração alguma possibilidade de
benefício pessoal).
Quando você é propriedade, você não precisa ser respeitado(a) enquanto
indivíduo. Suas relações afetivas com sua família podem ser interrompidas a
qualquer momento. Você pode ser violentado(a) sexualmente. Pode ser
ameaçado(a). E será descartado(a) assim que perder a utilidade para os outros. Em
suma: talvez pior que simplesmente se tirar a vida de um indivíduo seja lhe
roubar a vida para si. É por isso que o direito de não ser propriedade pode ser
considerado o mais básico de todos os direitos.