A teoria dos direitos animais existe para nos ajudar a decidir quando estamos certos e quando estamos errados em nossa relação com os outros animais. Ela é absolutamente simples. Ela pode ser aplicada por qualquer um, independentemente de credo, etnia, condição financeira, orientação sexual ou posicionamento político. E ela deve ser aplicada por todos e todas que acreditam no respeito e na justiça.
Para decidir se uma ação é certa ou errada, não basta olhar para o quão
felizes ou tristes ficam os indivíduos envolvidos. É claro que isso é importante – mas apenas uma vez que temos certeza de que ninguém está
tendo algum direito básico seu violado.
Por exemplo, se nos pedem para julgar moralmente um estupro, a última coisa que nos ocorre é se foi bom para o estuprador. Seria muita ousadia ele se virar para o juiz e dizer "Acredito que o prazer que eu senti excedeu o desprazer da vítima, de modo que minha ação aumentou o nosso bem-estar total. Então eu não só agi certo, como estaria errado caso não a tivesse estuprado!".
Considerações a respeito do bem-estar dos envolvidos simplesmente não têm qualquer relevância quando a questão envolve uma violação de direitos. Por exemplo, no caso do estupro, a vítima teve um direito seu violado – o de não ser dominada por ninguém. Infelizmente, na nossa relação com os outros animais, nós sempre estamos violando um direito básico deles.
Um direito é uma barreira que
protege um interesse fundamental seu da ação de terceiros. Ninguém pode violar
um direito seu simplesmente alegando que isso o deixaria mais feliz. É a
história do “o seu direito termina onde o meu começa”.
Nem sempre um direito é
garantido por lei. Mas, mesmo na ausência do direito legal, você ainda pode ter
um direito mais importante, um direito moral. Por exemplo, você tem um
interesse fundamental em que as outras pessoas não te matem (pois, se o
fizerem, seus outros interesses deixarão de fazer sentido). A esse seu
interesse fundamental está relacionado o seu direito à vida, um direito
moral. E as pessoas têm e sempre tiveram esse direito, independentemente do que
diziam as leis e os costumes da região e da época em que vivem ou viveram.
Duas observações são
importantes para o bom entendimento dos direitos. A primeira é que, ao direito
de um, corresponde o dever do outro de respeitar esse direito – no caso de esse
“outro” ser um indivíduo que possa ser responsabilizado pelos seus atos (um humano
adulto com plenas faculdades mentais, por exemplo). Logo, não se pode dizer que
você tem o direito de não ser atingido por um raio, já que não há alguém junto
a quem reclamar tal direito. Tampouco se pode dizer que você tem o direito de
não sentir o cheirinho daquilo que o bebê deixou em sua fralda: é só um bebê; é
difícil responsabilizar qualquer um por isso.
A segunda observação é que a
possibilidade da violação ética de direitos existe, sim – mas apenas em casos
em que há um conflito entre os direitos morais de dois ou mais indivíduos. Por
exemplo, alguém apontando uma arma para a nossa cabeça e pedindo que escolhamos
entre a vida de uma pessoa e a de outra (construir exemplos práticos já é mais
difícil). Mas o conflito precisa ser entre interesses genuinamente fundamentais
e que gerem direitos morais.
Um exemplo pode ilustrar a
importância dessas observações: imagine que dois filhos do seu vizinho nasceram
com uma doença desconhecida. Ele, então, raptou a sua filha para lhe servir de
cobaia em experimentos que terminaram por ajudá-lo a descobrir uma cura para a
doença dos seus meninos. Isso se justifica? Se o seu vizinho tiver lábia,
talvez até consiga convencer algumas pessoas de que sim, dizendo saber que se
tratava de um conflito de interesses fundamentais, mas que sua pesquisa acabou
por preservar o interesse do maior número de pessoas. Ele só não convenceria
você nem ninguém que percebesse que, enquanto o interesse fundamental da sua
filha em não ser dominada gerava um direito, o interesse
fundamental dos filhos do vizinho em ter uma vida feliz não geravam um direito, já que sequer haveria alguém junto a quem
reclamá-lo. E muito menos esse alguém seria sua filha ou você. Tanto é que seu
vizinho precisou raptar sua filha, ele não simplesmente bateu à sua porta e
disse “Olá vizinho, tudo bem? Vim tomar o que é meu de direito. Com licença,
sim?”.
Ao longo da História, seres humanos inocentes dos mais diversos credos,
etnias, gêneros, posições sociais, convicções políticas e orientações sexuais
foram perseguidos, escravizados, torturados, humilhados, estuprados e
assassinados. Tudo isso fere um direito moral básico de todos os seres humanos:
o direito de não ser considerado propriedade.
Ser considerado propriedade significa ser considerado recurso. Coisa. Escravo(a). Apenas um meio para os fins dos outros. Algo sem interesses próprios, ou ao menos não interesses que mereçam ser protegidos por direitos. Assim se justifica praticamente qualquer coisa que possa ser feita com a propriedade. Por um lado, esta não tem direitos. Por outro, o proprietário possui direito legal justamente sobre sua propriedade. O resultado é que os interesses do proprietário – por mais banais que sejam – sempre prevalecerão sobre os interesses da propriedade – por mais fundamentais que sejam.
Mas como é que sabemos que todo ser humano possui o
direito de não ser considerado propriedade? Pelo seguinte: seres humanos
possuem a capacidade biológica de sentir dor. A dor nada mais é que um
mecanismo de preservação da vida. Logo, cada humano preza sua própria vida. Mas
de nada adianta ele estar vivo se sua vida não lhe pertence. Se sua vida
pertence aos outros, ele não poderá escolher sobre seu próprio destino e nem
terá domínio sobre o seu próprio corpo.
E mais: todos os seus interesses vão por água abaixo quando seu direito
de não ser propriedade não é respeitado. Não só porque esses interesses podem
ser violados (pois uma propriedade não têm quaisquer direitos), mas porque eles
serão violados (um ser só é transformado em propriedade se, para começo
de conversa, alguém enxergou em sua exploração alguma possibilidade de
benefício pessoal).
Quando você é propriedade, você não precisa ser respeitado(a) enquanto
indivíduo. Suas relações afetivas com sua família podem ser interrompidas a
qualquer momento. Você pode ser violentado(a) sexualmente. Pode ser
ameaçado(a). E será descartado(a) assim que perder a utilidade para os outros. Em
suma: talvez pior que simplesmente se tirar a vida de um indivíduo seja lhe
roubar a vida para si. É por isso que o direito de não ser propriedade pode ser
considerado o mais básico de todos os direitos.
Repare na argumentação no item anterior. O direito básico de não ser
considerado propriedade decorreu unicamente da capacidade de sentir dor, também
conhecida como senciência. A conclusão imediata é que todos os seres
sencientes têm o direito de não serem considerados propriedade. E quem é
senciente?
Essa categoria inclui não só os animais humanos, mas também os
não-humanos, que também sentem dor. Vacas, ratos, araras, cachorros, elefantes,
cavalos, todos eles têm o direito moral de não serem propriedade, pelo exato
mesmo motivo que humanos o têm. Isso significa que temos a obrigação moral de
respeitar praticamente todos os animais, e não os enxergar como nossos
recursos, meios para os nossos fins.
Infelizmente, hoje em dia, vacas são consideradas animais “para fins de
alimentação e vestuário”, ratos são animais “de laboratório”, araras e
cachorros são animais “de estimação”, elefantes são animais “de circo”, cavalos
são animais “de tração” etc. Ou seja, botamos nos animais não-humanos apelidos
que denotam sua principal utilidade para nós. Violamos seu direito mais
importante, o de não serem considerados propriedade. É por isso que podemos
afirmar que a escravidão nos dias de hoje continua mais forte do que nunca.
Só para clarear
as idéias, pensemos no caso dos escravos africanos no Brasil colonial. Imagine
que você fosse um europeu do século XVI. Como você faria para respeitar esses
seres sencientes que, apesar de terem o direito moral de não serem propriedade,
não tinham a contrapartida legal desse direito? Bom, em primeiro lugar, você
não seria um(a) senhor(a) de escravos, claro. Mas isso adiantaria de algo se
você continuasse a consumir o açúcar produzido com mão-de-obra escrava?
Não. Para o escravo,
não faz diferença nenhuma quem está segurando o chicote, se você ou outra
pessoa. Ao engrossar a demanda por um produto que venha da escravidão, damos o
nosso próprio aval para que a escravidão continue, firme e forte. Não somos nós
que seguramos o chicote – mas somos nós que colocamos o chicote na mão do
capataz. Por outro lado, se você optasse por boicotar aquele produto, você
conseguiria mostrar sua oposição à instituição escravocrata, e ajudaria a
torná-la menos forte e legítima. E, com certeza, menos indivíduos teriam que
ser escravizados para suprir a menor demanda.
O tempo passou,
mas a lógica continua a mesma. A única maneira de combatermos a escravidão
legalizada de hoje, a dos animais não-humanos, é nos recusando a consumir produtos
provenientes dela: carnes, laticínios, couro, animais “de estimação”, produtos
testados em animais, ingressos de zoológico etc. Essa idéia revolucionária é
chamada de veganismo. É, por definição, a única maneira de respeitarmos
os animais. Ela é tratada com mais detalhes aqui.
É bom notar que não é nenhuma espécie de santidade da nossa parte que os
outros animais requerem. Nós tampouco somos santos(as) em nossas relações com
os outros humanos: é difícil encontrar alguém que verdadeiramente considere de
maneira igual os interesses dos outros e os seus próprios. Mesmo assim, respeitamos
as outras pessoas, não violamos seus direitos morais a torto e a direito (encontrem
estes contrapartida legal ou não). E os animais não-humanos também não pedem nada
além do nosso respeito.