De fato, nós não conhecemos as preferências de
ninguém. Nós não sabemos se você gosta de rock, axé ou música gospel. Mas
sabemos que não deseja ser dominado(a) por ninguém, e que isso você não troca
por nada. Sabemos disso mesmo sem conhecê-lo(a), e o sabemos por você ser um
ser senciente. Não faria sentido que alguém dotado da capacidade de sentir dor
não prezasse a própria vida. E não faria sentido que alguém que preza a própria
vida admitisse sem qualquer problema que sua vida fosse entregue a outro, que
pudesse fazer com ele o que quisesse.
Em quem tem o direito de não ser
propriedade?, vimos que todo ser senciente possui esse direito. E
quanto aos não-sencientes? É um tanto ilógico imaginar que o processo
evolucionário tivesse privado um ser que preza a própria vida de um mecanismo
básico de preservação da mesma, como a capacidade de sentir dor. Assim, é
bastante natural enxergarmos seres sencientes como os únicos que prezam sua
própria vida, logo os únicos que carregam o direito moral de não serem
considerados propriedade.
Nada indica
que plantas sejam sencientes. Como elas não possuem sistema nervoso, seria
necessária uma explicação metafísica para dar conta de seu potencial de sentir
dor. Mas isso não tem nada a ver com o que é um fato consumado: animais são
seres sencientes. Administra-se anestesia a cães antes de uma cirurgia – mas
não se administra anestesia a plantas antes de uma poda. Não há qualquer estudo
científico concluindo que as plantas são seres sencientes.
Esponjas são classificadas como animais, mas não são
sencientes, pois, assim como as plantas, não possuem nenhum resquício de
sistema nervoso. Não se conhecem seres sencientes que não pertencem ao reino
animal. De qualquer modo, não há dúvida de que os animais que exploramos
cotidianamente são sencientes. Conseqüentemente, é nosso dever respeitá-los.
Sim.
Insetos claramente prezam sua própria vida, e devem ser respeitados por nós.
Isso significa, por exemplo, que não devemos roubar a comida que as abelhas
fabricam para sua comunidade, o mel. Também que podemos afastar as baratas que
porventura surjam em nossas casas simplesmente as cobrindo com uma lata, passando
uma folha de papel embaixo, e liberando-as do lado de fora. Quanto às formigas
que andam na rua, é lamentável, mas inevitável, que acabemos matando algumas.
Só não precisamos pisoteá-las de maneira intencional. Não é porque não
conseguimos fazer tudo que não vamos fazer o que está absolutamente ao nosso
alcance.
Sim! Se é
essa sua preocupação, você pode tentar priorizar frutas, verduras, legumes e
tubérculos produzidos sem inseticidas (orgânicos), e de preferência, em uma
fazenda de alguém que respeita os animais. O(a) fazendeiro(a), se quiser, pode
fazer uso de espantalhos, homeopatia, barreiras físicas, usar repelentes
sonoros, e também pode fazer rotação e planejamento agroecológico das suas
culturas como medida preventiva para que outros animais não se fixem ali e se
aproveitem de sua produção. É impossível reduzir o número desses animais a zero
– mas isso tampouco é necessário. Também seria interessante se as ferramentas
desse(a) fazendeiro(a) fossem desenhadas para não matar minhocas. E, mais
importante, que o adubo não contenha esterco. Se você conhece um(a) produtor(a)
com essa preocupação, por favor nos avise! O(a) produtor(a), ou mesmo você que
quer praticar horta urbana no seu quintal, pode encontrar recomendações e
critérios para uma lavoura vegana orgânica em www.veganorganic.net.
Sim. E por dois motivos. Um deles é que eles pertencem ao governo
(humano, claro) do país em que se encontram. O governo pode mandar que qualquer
coisa seja feita ou deixada de fazer com eles. O segundo motivo é que a
primeira pessoa que conseguir dominá-los será considerada sua proprietária. É
assim, por exemplo, com a caça e pesca esportiva. Se queremos reconhecer o
direito mais básico dos outros – o direito de não serem considerados nossa
propriedade – nós temos que simplesmente deixá-los em paz, deixá-los viver a
sua vida naturalmente, de acordo com suas próprias preferências.
Você está com a
razão em relação ao fato de que o número de indivíduos dessas espécies ficará
extremamente reduzido. Então provavelmente algumas pessoas se dirão preocupadas
com a extinção dessas espécies. Mas é bom notar, em primeiro lugar, que animais
que foram afastados da natureza (caso dos bovinos), bem como aqueles que foram
inventados pelo ser humano e nunca tiveram uma natureza (caso dos cachorros
“domésticos”), não têm qualquer função na natureza. Salvo um ou outro
touro selvagem e cachorro-do-mato, os indivíduos dessas espécies não estão mais
na natureza, de modo que sua extinção não desequilibrará o meio ambiente. Em
segundo lugar, é bom lembrar que espécies não têm direitos. Só pode ter direito
um ente que possui um interesse a ser protegido por tal direito. E só têm interesses
os indivíduos, não as espécies. Assim, não há nenhuma maldade na proposta
vegana (muito pelo contrário, há um profundo respeito por todos os indivíduos).
Em terceiro, lembremos que o mundo vai se tornando vegano aos poucos, cada vez
que uma pessoa decide se tornar vegana. À medida que isso acontece, a oferta de
produtos animais também vai diminuindo, e menos escravos vão sendo trazidos à
existência. Mas, num caso absurdo em que todos os(as) não-veganos(as) do mundo
num belo dia tivessem um despertar de consciência e decidissem se tornar
veganos(as) na mesma hora, teríamos que cuidar de todos os bois e cachorros já
existentes para que tivessem uma vida digna até sua morte natural. Alguns
animais possivelmente ainda poderiam ser reintroduzidos na natureza, outros
não. Mas o que lhes importa não é se sua espécie entrará ou não em “extinção”,
mas sim se eles mesmos continuarão existindo para satisfazer aos outros ou se
suas preferências começarão a ser levadas em conta.
Aliás, cuidado para
não cair no engodo da “extinção”! Esse termo costuma ser empregado por alguns
ambientalistas como sinônimo perfeito de “escassez”. O objetivo dessas pessoas
ao buscar regular (ou coibir em determinados períodos) a matança, apropriação
e/ou venda de animais de determinadas espécies é que esses “recursos” naturais
dos seres humanos (os animais não-humanos) não se percam. Isso garante o
“direito natural” das futuras gerações humanas de se aproveitarem dos animais
como nos aproveitamos hoje em dia (ou também de outras maneiras que ainda não foram
descobertas). Para eles, o que importa é o número de exemplares da espécie, e
não cada indivíduo dela.
Sacrificar
uma galinha. Os hábitos da humanidade têm que evoluir à medida que sua
moralidade evolui. Se somos contra matar galinhas, não as matemos. Nós temos
que incorporar, e não moldar, nossos princípios à nossa cultura. É bom lembrar
que a cultura não é estática, é dinâmica.
A resposta da pergunta anterior
vale para todos igualmente, mas devemos pensar primeiro no que nós devemos
fazer, para depois pensar no que os outros podem fazer. Mas sem dúvida, a
exploração de animais, assim como de mulheres ou de prisioneiros de guerra não
pode ser justificada com frases como “Sempre foi assim”. Deveremos chegar num momento em que seja necessário o diálogo entre
culturas – o que nada tem a ver com imposição cultural.
É impossível comprovar a teoria de que comer carne desenvolveu nosso
cérebro. Como dizer que não foi a necessidade de inventarmos novas armas ou
planos para capturar animais para comermos que o desenvolveu? Mas, mesmo se
acreditássemos nessa teoria, não poderíamos dizer que, se o homem se tornar
vegetariano, ele ou seus descendentes poderão ficar menos inteligentes. Como
explicado em uma pitada de nutrição, hoje
é possível obtermos facilmente todos os nutrientes de que precisamos a partir
da dieta vegetariana – o que era bem menos fácil na pré-História.
Não! Ser vegano significa buscar não colaborar com a escravidão.
Não conseguimos fazer isso em 100% das situações, mas isso não nos torna menos
veganos(as). O importante é termos clareza das implicações de tudo o que
consumimos, e sempre buscarmos melhorias. Em geral, aprendemos bastante com
outras pessoas veganas, que podem conhecer um substituto mais ético para um
produto que estávamos acostumados a consumir. Temos que estar sempre de olhos e
ouvidos bem abertos.
É
verdade. Mas, se você deixar de tomar esse ônibus, a empresa de pneus vai
entender que você não quer que ela use gelatina no pneu? Bem pouco provável.
Por outro lado, quando deixamos de consumir laticínios (por exemplo), o recado
que estamos dando para o explorador é direto. Se as vendas de queijo diminuem
hoje, a produção diminuirá amanhã, e menos animais terão de ser trazidos à
existência para nos servir. Toda e qualquer iniciativa no sentido de boicotar a
escravidão é positiva – mas há de se relevar a efetividade desse boicote, ou
seja, se a idéia dos direitos animais está realmente sendo transmitida e
absorvida.
É
absolutamente compreensível que, em casos em que algum interesse fundamental
nosso esteja em conflito com o de outros (sejam não-humanos ou humanos),
tendamos a priorizar o nosso. Mas nem por isso que somos a favor da exploração
institucionalizada dos outros. A única situação moralmente aceitável seria se
ninguém tivesse sido sacrificado para se desenvolverem as drogas que poderão te
salvar no caso do atropelamento (como no exemplo do vizinho, aqui). Mas,
infelizmente, você não pode mudar o passado, apenas o futuro. Assim, não há
nenhuma incoerência em você, por um lado, aceitar o medicamento que vai aliviar
sua dor e salvar sua vida, e por outro, lutar para que cessem já os testes em
animais. A melhor maneira de fazer isso é simplesmente se cuidar, para que o
seu uso cotidiano de remédios seja o menor possível.
Sim.
Esses tais “defensores dos animais” não questionam o uso em si dos animais, mas
sim o tomam como uma premissa. Na verdade, eles são tudo com que poderia sonhar
o explorador. Nada melhor que pessoas e grupos que posam de “defensores dos
animais” colocando para a sociedade que existem maneiras erradas (e,
conseqüentemente, uma maneira correta) de usarmos os animais. Essa é a maneira
mais segura de garantir a perpetuação da escravidão. Basta fazer pequenos
ajustes de tempos em tempos nos seus detalhes para que as pessoas sempre
renovem sua percepção de que ela é natural e aceitável.
Se sua
situação financeira não acomoda bem o vegetarianismo, ela também não deve
acomodar bem o onivorismo. Ou talvez você ainda não tenha se dado conta de como
é fácil e barato ser vegetariano(a). Quando uma pessoa se torna vegetariana,
ela começa a descobrir todas as gostosuras que estava perdendo quando era onívora.
Mas nenhum(a) vegetariano(a) é obrigado(a) a comer carne de soja, tofu, ou
alimentos vegetais exóticos. A porção vegana da culinária brasileira, além de
usualmente barata, é riquíssima do ponto de vista nutricional, como você pode
ver em uma pitada de nutrição.
É muito fácil
encontrar restaurantes por quilo não-vegetarianos em que vegetarianos(as) podem
se deliciar. A primeira pergunta costuma ser se o feijão leva carne. Se eles te
assegurarem que não (lembre a eles que bacon, por exemplo, é um tipo de carne),
e que não foi nem “só cozido” com carne, nem levou algum caldo ou gordura
animal, você deve estar num lugar confiável. Mas não tenha medo de perguntar
quando tiver dúvida. Às vezes alguma coisa pode levar manteiga ou ovo e não
aparentar. O importante é sentir confiança nas respostas dos funcionários e
funcionárias da casa.
Se nós somos agentes
morais, não há por que basearmos nossa ética nos princípios morais do leão em
detrimento dos nossos. Aliás, um leão nem pode ser
vegetariano na natureza, pois, diferentemente de nós, alguns dos aminoácidos
que lhe são essenciais (seu organismo não os consegue produzir) não são
obteníveis a partir dos vegetais. Como colocamos em
o que precisamos fazer?, o fato de que as pessoas podem
ser vegetarianas sem qualquer prejuízo à sua saúde é fundamental para que o
vegetarianismo seja considerado a prática alimentar do indivíduo vegano, aquele
que respeita os animais.
Qualquer criação de animais não-humanos, seja ou não
voltada para o comércio, tem como motivação única o bem-estar de algum humano. Não
há nada pior que domesticar um animal. Se o ser humano resolveu se separar da
natureza e viver numa selva de pedra, tudo bem – mas nem por isso os outros
animais têm que fazer o mesmo. Deixemo-los livres de uma vez por todas – não
forçando sua procriação para que suas crias sirvam algum interesse nosso. É
lógico que é melhor sermos senhores(as) de escravos bonzinhos do que
senhores(as) de escravos vis – mas mesmo nesta situação não deixamos de ser senhores(as)
de escravos.
A existência de animais “domésticos” sem dúvida é um
grande problema. Não importa o quão bem nós os tratemos, eles sempre estarão
limitados por nossas vontades. Diferentemente das crianças humanas, eles para
sempre comerão na hora em que nós quisermos, farão suas necessidades na hora em
que nós quisermos, sairão para passear (no caso de cães) na hora em que nós
quisermos. Sem exceção, sejam cães, gatos, pássaros ou peixes, ou sua liberdade
lhes foi roubada (no caso em que eles foram capturados de um ambiente natural),
ou a liberdade de seus pais foi roubada (no caso em que eles nasceram em
cativeiro). Nesse último caso, laços familiares também foram rompidos. E não
temos que continuar dando nosso dinheiro a gente que faz barbaridades como
essas. Por isso, não devemos comprar animais.
Mas é lógico que, quando adotamos um animal
abandonado, não estamos dando nenhum suporte à escravidão, mas sim nos
comprometendo a dar uma vida o mais decente possível a um indivíduo que já se
encontra numa situação de dependência – e isso é ótimo. É importante não nos
esquecermos de castrá-lo, a fim de frearmos o uso de animais para entretenimento
humano.
Na
verdade, a responsabilidade maior deve recair sobre o consumidor, não sobre o
produtor. O último é apenas o executor do crime moral – o primeiro é o
mandante. Os(as) produtores(as) só exploram animais porque é o que precisa ser
feito se nós queremos continuar tendo a possibilidade de ter animais “de
estimação”, queijos-quentes ou gravatas de seda. No momento em que nós não
quisermos mais essas coisas e quisermos outros produtos que não envolvem
desrespeito, gradualmente ocorrerá um deslocamento do setor escravocrata da
economia para setores não-escravocratas, ou mesmo uma mudança dentro do setor
até então escravocrata (hoje, no Brasil, grandes cadeias de alimentos a base de
carne animal já possuem linhas a base de carne de soja).
É verdade, não temos
esse direito. Apenas note que, se você se opõe à escravidão, seria uma grande
incoerência você comprar ou usar alimentos de origem animal, já que estes
necessariamente provêm da escravidão. Logo, coma o que você quiser – mas seja
vegetariano(a).