Na prática, o que precisamos fazer é verificar quais produtos oriundos
da escravidão fazem parte do nosso dia-a-dia, e eliminá-los de nossa cesta de
consumo. Seguindo o mapeamento que fizemos em por dentro da escravidão, os principais
produtos que merecem nossa atenção são: alimentos produzidos com carnes,
laticínios, ovos, mel, gelatina ou corante cochonilha; cães, gatos, peixes e
pássaros “de estimação”, ingressos de zoológicos ou espetáculos que fazem uso
de animais; roupas ou acessórios feitos com lã, couro, camurça ou seda; e
produtos de higiene e de cuidados pessoais testados em animais (veja nossa
lista de empresas sádicas (aguarde), que são as que fazem testes em animais
mesmo não sendo obrigadas por lei) ou com ingredientes de origem animal.
Nenhum desses produtos pode – nem de longe – ser considerado necessário
para o ser humano. Segundo a American Dietetic Association, maior organização
de nutricionistas dos Estados Unidos, a dieta vegetariana (a que não apresenta
nenhum produto que vem dos animais) “é apropriada para todas as fases do ciclo
vital, incluindo gestação, lactação, infância e adolescência”. Você pode ver
mais detalhes a respeito na seção uma pitada de nutrição. Seja para fins de
alimentação, entretenimento, vestuário, higiene ou cuidados pessoais, estamos
comparando o interesse mais básico que um ser pode possuir – o de não ser
considerado propriedade – com um interesse nem um pouco fundamental: um gosto
específico que gostaríamos de sentir na boca, uma risada por algum motivo
específico que gostaríamos de dar, um material específico que gostaríamos de
vestir, um perfume específico que gostaríamos de passar etc.
Já os remédios não podem receber de pronto o rótulo de desnecessários. Algumas
pessoas precisam até fazer uso regular deles. A saída mais eficaz para essa
questão é a prevenção: podemos minimizar nossa dependência de remédios com
hábitos alimentares saudáveis (veja uma pitada de nutrição) e a prática
regular de exercícios físicos. O que são realmente desnecessários são os testes
em animais, pois, como você pode ver na seção pode a ciência ser ética?, as verdadeiras
cobaias serão sempre os primeiros humanos que recebem a droga.
É bom
sempre ter em mente que não é o passado que podemos mudar, mas sim o futuro. Por
mais que gostaríamos que a tortura descrita na seção medicamentos cessasse de imediato, não é deixando de tomar um
remédio quando precisamos que vamos fazer com que menos animais venham à
existência para nos servir. Quando compramos um queijo-quente, sabemos estar
dando um incentivo direto a que mais animais venham à existência para serem
explorados para produzirmos queijo. Já quando compramos um medicamento, o
incentivo à exploração é muito mais difuso. No máximo, alguém pode argumentar
que ao fazermos isso estamos inflando o setor farmacêutico da economia, o que
pode fazer mais empresários resolverem entrar nesse setor e produzir novos
medicamentos, que necessitarão de mais testes.
Mas mesmo se você quiser levar esse efeito em conta, lembre-se:
veganismo não se trata de pureza, mas sim de respeito. Em casos em que não
existe um conflito de interesses fundamentais com outros seres sencientes, é
nosso dever agir com respeito para com eles. Já quando esse tipo de conflito
existe (como no exemplo do vizinho), é absolutamente
natural que tendamos a dar prioridade para nós mesmos. Felizmente, esses casos
de verdadeiro conflito não são tão comuns assim em nosso cotidiano. O simples
boicote aos produtos alimentícios de origem animal já representa o nosso apoio
à libertação de cerca de 99% dos escravos de hoje.